As Lições de Marketing Escondidas na História do Vinho Petrus

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Como um bom gaúcho, descendente de italianos do interior do Rio Grande do Sul, com parte da alimentação de férias movida a base de polenta e derivados de uva, evidentemente não poderia deixar de amar, mais tardiamente, o vinho. E, inclusive, farmacêuticos podem trabalhar no ramo e analisar tanto o produto final quanto toda a cadeia de produção do vinho, afinal uma das nossas mais antigas especializações farmacêutica era na área de Alimentos.

Mas, dessa vez, vou me atrever a falar sobre vinho e Marketing – espero que gostem e inspirem-se com esta história!

O vinho Petrus!

Apresento você ao vinho Petrus, o grande vinho tinto do Pomerol, um dos vinhos mais conhecidos, mais caros e “menos” bebidos do mundo. Essa relação, para muitos especialistas em Marketing, é bem óbvia: algo que é muito desejado, mas pouco produzido, será caro. Só que essa análise seria muito pobre, ao se tratar da história deste vinho, que esconde algumas peculiaridades (em alguns momentos usarei termos específicos da enologia, mas tentarei explicá-los de maneira mais didática).

1º – Não há châteaux, nem segundo vinho e, às vezes, nem mesmo o Petrus!

Muitos visitantes que passeiam pela região de Bordeaux pedem para visitar o “Château Petrus” (do francês, château, significa castelo, mas designa na enologia uma propriedade produtora de vinho com instalações próprias, fábrica, etc), mas eles não irão encontrá-lo. Até pouco mais de dez anos atrás, havia uma casa simples na propriedade, mas que já foi demolida. Atualmente, há uma nova construção que identifica o vinhedo, mas nada que se assemelhe a um “château” de verdade.

Enófilos (apreciadores e estudiosos de vinhos e outras bebidas) que também estiverem procurando um “segundo vinho”, mais acessível ao bolso para experimentar, também pode esquecer. Se a safra inteira não tiver qualidade, simplesmente não haverá Petrus naquele ano. A última vez em que isso aconteceu, foi na terrível safra de 1991. E você já havia ouvido falar de alguma política de empresa que prezasse tanto qualidade em detrimento da quantidade?

2º – O “botão” Petrus

Qualquer discussão sobre o Petrus invariavelmente vai incluir uma menção ao chamado “botão” (tradução ao pé da letra do termo inglês “button”, que faz menção a um específico lote ou parte de um terreno com característica minerais singulares), ou seja, a alta concentração de argila “azul”, no qual 11,5 hectares de vinhas da propriedade estão plantadas.

“O solo de argila azul tem 40 milhões de anos de idade”, explica o enólogo do Petrus, Olivier Berrouet. “Na superfície, essa argila é mais escura devido ao material orgânico presente. Na camada inferior, está a argila azul, que contém uma grande quantidade de ferro em sua composição. O “botão”, onde as vinhas estão, é justamente o afloramento deste solo especial, no ponto mais alto do Pomerol, 40 metros acima do nível do mar.”, concluiu ele. Seria isto sorte ou muito estudo para a escolha do local?

3º – A pureza de um Borgonha

O Petrus, cuja produção média é de apenas 30 mil garrafas a cada safra, é descrito como um Bordeaux de alta qualidade e baixo volume de produção, que tipifica a noção de terroir mais do que qualquer outro vinho da região, algo tão caro à Borgonha. Como os vinhos de Bordeaux são essencialmente blends (“misturas”) e o Petrus é quase sempre 100% feito com Merlot (algumas poucas safras pode conter um pouco de Cabernet Franc, não mais que 5%), ele oferece aquela mesma pureza característica da Borgonha, onde uma casta específica está ligada diretamente a um determinado terroir (uma especialidade agrícola de uma determinada região produtora). O vinho é apenas a tradução líquida dessa união.

4º – A demanda doméstica

Ao contrário da maioria dos outros vinhos de Bordeaux na mesma faixa de preço, o grande mercado do Petrus ainda é significativamente doméstico. Cerca de 35 a 40% de sua produção é vendida na própria França, mesmo com o acentuado declínio no consumo local, que tem impulsionado outros produtores para os mercados de exportação, especialmente da Ásia. Os principais mercados de exportação para o Petrus são os Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Bélgica e Hong Kong. Mas isto é um fenômeno recente, pois o início de sua história não foi bem assim, como lerás abaixo!

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5º – O momento da virada

O enólogo Berrouet diz que um dos momentos-chave para o Petrus foi a crise da filoxera que atingiu toda Bordeaux no final do século 19, dizimando suas vinhas. Como resultado, a propriedade foi totalmente replantada com a casta Merlot. Segundo ele, “Por que exatamente eles decidiram replantar com Merlot não se sabe ao certo. O que está muito claro é que foi uma decisão excelente para o vinho”. Sorte ou sacada de mestre?

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6º – Um vinho para os “Kennedys”

Apesar do fato de que o principal mercado do Pétrus é doméstico na atualidade, sua reputação foi construída no exterior. “Antes da Segunda Guerra Mundial, o Petrus começava a ganhar sua boa reputação, mas foi somente após ele que as coisas realmente decolaram”, lembra Berrouet. “Madame Edmond Loubat, proprietária da época, tinha grande confiança na qualidade de seus vinhos, mas foi o comerciante local Jean-Pierre Moueix, que acabou assumindo o controle da propriedade, que percebeu como seria importante a distribuição do vinho no mercado externo.

“Na França daquela época, um ‘grand vin rouge‘ era sinônimo de Médoc”, lembra Berrouet. “As pessoas não sabiam muito sobre a margem direita de Bordeaux. Assim, Jean-Pierre, em vez de tentar vender a margem direita como uma espécie de segunda divisão de Bordeaux, decidiu ir diretamente ao exterior, onde construiu um mercado muito bem sucedido, especialmente no Reino Unido e nos EUA, para o Petrus.” Nas décadas de 1950 e 1960, ele caiu nas graças dos Kennedys, fonte de referência para toda a América, ajudando a consolidar ainda mais sua fama.

7º – E o que São Pedro tem a ver com isso?

Os romanos, sempre eles, deram a aquele “botão” de argila azul, o nome de Petrus, que significava pedra ou rocha (durante o verão, a argila seca e torna-se tão dura quanto pedra). Uma outra grafia para esta palavra, era Pedro, o nome do líder dos apóstolos de Cristo, que sentenciou: “Sobre esta pedra eu vou edificarei a minha igreja”. Quando Madame Loubat tornou-se proprietária do Petrus na década de 1940, ela encomendou um novo rótulo para seu vinho, desta vez, ilustrando São Pedro segurando as chaves para o reino dos céus. Alguns anos mais tarde, ela também encomendou uma estátua do santo, que ainda tem lugar de honra na propriedade, consolidando definitivamente sua “marca”.

8º – E para beber o Petrus, quanto você vai precisar gastar?

As grandes safras de Petrus que estão prontas para serem degustadas no auge, incluem anos como 1975, 1982, 1990 e 1995. Por outro lado, anos “menores” como 1981, 1992, 1993 e 2002, também estão prontos. Para Berrouet, o melhor vinho entre as safras superiores para beber já seria o 1995, enquanto nas safras apenas “boas”, ele recomendaria o ano de 2002.

Para comprá-los, esqueça os preços no Brasil (começam acima dos R$8.000 por garrafa). Os preços de varejo no exterior para as melhores safras variam entre 2.000 e 3.500 euros por garrafa, algo extremamente caro até mesmo no exterior. Para safras menores, esse preço pode cair significativamente, para algo entre 700 a 900 euros por garrafa, mas ainda assim, quase inacessível para a maioria dos “mortais”.

Veja mais em: http://www.vinhosemaisvinhos.com/2011/01/direto-da-taca-o-primeiro-petrus-gente.html

Fonte: adaptado de Wine Searcher

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